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apresentação

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Frantz Fanon (1925-1961) foi publicado pela primeira vez no Brasil ainda nos anos de 1960. Os Condenados da Terra (1968) foi traduzido e editado pela Civilização Brasileira num esforço  que já havia trazido Neocolonialismo: último estágio do imperialismo (1967) de Kwame N'Krumah. Quase quarenta anos depois, a Editora da Universidade Federal de Juiz de Fora publicou novamente Os Condenados da Terra em 2005, como versão da nova edição fracesa publicada em 2002, prefaciada por Alice Cherki, psiquiatra e psicanalista argelina que trabalhou com Fanon na Argélia e na Tunísia. Nesse interrregno de décadas sem novas edições de Fanon, o debate social e político brasileiro se esqueceu desse gigante do século XX. Talvez pelas excessivas e otimistas esperanças depositadas em pactuações que dificilmente achariam amparo na obra fanoniana.

A fortuna crítica da obra de Fanon em português vive, talvez, seu ápice precisamente nos anos 2000. a profusão de edições novas de seus textos e, tão importante quanto, o debate em torno de sua obra avança rapidamente rompendo contornos temáticos, metodológicos e, mais importante, disciplinares.

Marxistas, lacanianos, "pós-modernos" e pan-africanistas tem lido Fanon a partir de chaves diversas. Nos anos 1980, a reapresentação de Fanon em língua inlgesa se deu pela pena de Homi Bhabha, um importante expoente dos estudos pós-coloniais, que lembra - não

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ironia - da indiferença com que importantes periódicos do marxismo anglófono trataram Fanon, basicamente ignorando-o. Bhabha, porém, é  forçado a reconhecer que a memória de Frantz Fanon viveu nos movimentos de libertação terceiro-mundistas, na inspiração para resistência violenta do Black Power e de sua "histórica participação na Revolução Argelina". A fecundidade do pensamento fanoniano atravessa, portanto, múltiplas maneiras de pensar e diferentes agendas políticas.

Aos 100 anos de Fanon, em tempos de escalada da violência do colonizador, seu pensamento nunca pareceu tão vivo. O genocídio do povo palestino praticado por Israel com complacência das duas pontas do Atlântico Norte e os conflitos entre civis e militares  de países que foram colonizados por europeus (Sudão, Etiópia e Mianmar) constituem algumas das expressões mais evidentes do colonialismo como fase ainda não superada do capitalismo. Onde quer que paire vestígios de obra colonizadora, o pensamento de Fanon encontra solo fértil.

Edição brasileira de 1968, publicada pela editora Civilização Brasileira. Extraído de: FANON, Frantz Os Condenados Da Terra : Free Download, Borrow, and Streaming : Internet Archive. Acesso em 19 mar. 2026

Sua obra Pele Negra, Máscaras Brancas é resultado de um trabalho inicialmente intitulado "Ensaio sobre a desalienação do Negro" (tradução livre). Tal trabalho é o pontos de chegada de múltiplas experiências que Fanon havia vivenciado sob a mentoria de Jean Oury e François Tosquelles. Particularmente o último é associado à psicanálise libertária e a uma abordagem psiquiátrica inovadora. O Hospital de Saint-Alban, onde Fanon foi interno, serviu de refúgio para opositores à França de Vichy e à ocupação nazista, além de ter sido um espaço de experimentação de novas abordagens psiquiátricas. Em todo caso, a tese de Fanon foi rejeitada, mas isso não o impediu de publicá-la rapidamente, ainda em 1952. Sua recepção foi tardia e sua popularização coincidiu com a eclosão dos grandes movimentos de rebelião dos colonizados no final dos anos 1950 e durante a década de 1960.

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Frantz Fanon é parte da herança marxista. Ainda que jamais tenha feito parte de qualquer panteão ou que se ignore sua filiação ao existencialismo sartreano, Fanon localiza a fagulha revolucionária de seu tempo. Sem saber, Fanon encontra o velho Marx. O "Mouro" operou, em seus últimos anos, um ajuste em suas perspectivas revolucionárias. Passou a conceber, agora explicitamente, a existências de múltiplos caminhos de desenvolvimento histórico. Nesse sentido, para Marx, as possibilidades revolucionárias não estariam restritas a determinadas sociedades ou a "etapas"/"estágios" históricos específicos. A conclusão, para o nosso tempo, é que revoluções ocorrem a despeito de pretensos impedimentos históricos. Talvez Fanon tenha sido o mais impactante pensador a localizar as centelhas e, mais importante, ele desnudou o caminho para localizá-las nas sociedades colonizadas.

A Revista História & Luta de Classes publica sua edição de número 40, completadas das décadas de circulação ininterrupta, em um contexto político bastante agitado. De um lado, o julgamento de Bolsonaro  e seus generais, responsáveis pelo intento golpista movido pela perspectiva de fascistização, é um marco histórico por diversas razões: pela primeira vez coloca no banco dos réus altos oficiais das Forças Armadas,

Edição brasileira publicada em 2020 pela Ubu Editora. Extraído de: 510ZP6ECsBL._SL1191_.jpg (794×1191). Acesso em 19 mar. 2026

coloca a possibilidade de superação, ainda que parcial, da tradição conciliatória e de não punição de intentos golpistas fracassados e gera a expectativa de prisão do líder (neo)fascista que conduziu a sistemática tentativa de imposição de uma ruptura institucional. Ao mesmo tempo, o Plebiscito Popular produz o avanço do processo de mobilização contra a jornada de trabalho 6/1 e pela taxação dos super-ricos. De outra parte, a direita fascista e o Centrão permanecem ativos, seja na articulação de uma anistia aos golpistas, seja na manutenção do sequestro de expressiva parte do orçamento público, seja na ameaça de uma contrarreforma administrativa que contribuiu para o avanço da precarização, da terceirização e do desmonte dos serviços públicos. A História não se encerrou e a Luta de Classes permanece em curso, e de seu desenvolvimento depende a luta contra o fascismo e a própria manutenção das condições de vida humana no planeta.

Setembro de 2025

Aruá Silva de Lima

Igor Gomes Santos

Marcelo Badaró de Mattos

Coordenadores do dossiê

Gilberto Calil

Editor

marxismo e lutas anticoloniais:
aos 100 anos de franz fanon

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Entre o particular e o comum:
uma análise das greves operárias no Rio de Janeiro no ano de 1919.

Kaio César Goulart Alves

Neste artigo procuro identificar as greves operárias ocorridas no Rio de Janeiro durante um ano de intensa agitação social em nível nacional e internacional, o ano de 1919, ao mesmo tempo em que tento evidenciar as semelhanças e as peculiaridades das ações coletivas com ocontexto mais amplo durante este ano. Isso feito por meio da análise da imprensa operária, da grande imprensa e dos documentos sindicais.

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O presente artigo propõe uma reflexão acerca da imprensa negra paulista durante as décadas de 1920 e 1930 no Brasil, assim como seus encontros e desencontros com a imprensa operária nesse contexto. Num momento de grandes disputas político-ideológicas em torno da questão racial e da identidade nacional, no qual o movimento eugenista se erguia no país e no mundo, identificamos que ambas imprensas praticamente não se cruzam, ou sequer mantiveram espaços e movimentos de intervenção conjunta, até, ao menos, os primeiros anos da década de 1930. Se, por um lado, a imprensa negra sofria de um certo “apoliticismo” ao não se posicionar perante a luta de classes, distintas tendências da imprensa operária secundarizaram o debate acerca da chamada “questão negra”, por outro.

A imprensa negra paulista e a imprensa operária diante da luta de classes nas décadas de 1920 e 1930 no Brasil: convergência ou bifurcação?

Lívia Cintra Berdu

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Da sociogênese dos afetos à violência revolucionária em Fanon.

Diana Pichinine

Bárbara Dias

Este artigo pretende argumentar que Frantz Fanon (1925-1961) construiu na práxis uma teoria que inaugura uma modalidade de subjetivação revolucionária, articulada na e pela violência experimentada na luta anticolonial e na defesa do corpo social que emerge dessa cultura emancipatória. Seu projeto original de desalienação do homem negro percorrerá de Peles negras, Máscaras brancas (1952) a Os condenados da Terra (1961), obras unidas por uma formulação da “Teoria da dupla natureza da Violência” (segunda fase), seja entendida como “princípio de criação”, seja entendida como “princípio de aniquilação”, talvez tenha sido sua maior contribuição para a história dos processos revolucionários de emancipação que teve início com a libertação da Argélia.

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Adentramos no debate sobre a descolonização da psicologia brasileira, movidos pelas reflexões de Frantz Fanon. Para além dele, dialogamos com importantes nomes da tradição marxista latino-americana e com autores(as) críticos(as) da psicologia. Questionamos como certa “descolonização” tem sido aceita, incorporada e reivindicada pela psicologia brasileira, sobretudo as propostas de construção de uma psicologia nacionalista como alternativa ao caráter colonizado da psicologia. Para isso, atentamos par ao atrelamento da descolonização à revolução, disputando a psicologia internamente, mas indo além e por fora dela, nas/pelas necessidades e lutas dos condenados da terra.

“A descolonização jamais passa despercebida”. Fanon e a descolonização da e na psicologia brasileira.

Pedro H. Antunes da Costa

Kíssila Teixeira Mendes

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Frantz Fanon e a alienação mental do preto - a autodeterminação como resposta à ausência de reconhecimento.

Vitor M. dos Reis Martins Duarte

O presente trabalho pretende refletir sobre análise feita pelo psiquiatra marticicano Frantz Fanon acerca da alienação mental do preto, propondo que, na teoria fanoniana a autodeterminação é uma resposta à ausência de reconhecimento. A partir dos principais textos desse pensador e militante revolucionário, busca-se compreender compreender a proposição teórico-prática de Frantz Fanon para superação da alienação do preto. Realizar essa tarefa significa, entre outras coisas, entender o que é alienação do preto para Fanon, compreender o papel do reconhecimento na situação colonial e apreender o significado de autodeterminação na teoria de Frantz Fanon.

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O presente trabalho busca analisar a Guerra da Argélia e seus desdobramentos na política de segurança do Brasil, tendo como aparato teórico o pensamento anticolonialista de Frantz Fanon. A revolução da Argélia foi uma das guerras anticoloniais mais cruéis de toda a história. Depois de mais de cem anos de colonização, em 1954 o povo argelino aderiu à contenda revolucionária por meio de métodos de resistência armada em prol da luta pela independência, que viria somente em 1962, após oito anos de guerrilha. A história da lita e libertação argelina confunde-se com a do intelectual revolucionário Frantz Fanon, psiquiatra martinicano, que participou da Frente de Libertação Nacional Argelina (FNL) e dedicou grande parte de sua obra para a análise da colonização e da radicalização que ocorriam na Argéllia e em outros países do Continente Africano. Entre meca dos revolucionários e o oásis do terror, a Argélia independente trouxe influências diversas para o mundo em guerra fria da década de 1960, inclusive para o Brasil dos militares de 1964. Assim, este estudo tem o intuito de compreender o papel da Argélia no pperíodo ditatorial brasileiro e seus reflexos na política de segunça contemporânea à luz do pensamento de Frantz Fanon.

Entre a Meca dos Revolucionários e o Oasis do terror:
uma análise da Guerra da Argélia e de seus desdobramentos na política de segurança nacional do Brasil sob o viés anticolonialista de Frantz Fanon

Nicoli França Rocha

Descolonizando a Consciência: diálogos entre Fanon, Lélia Gonzalez e a Teoria da Reprodução Social

Ana E. Carvalho de Souza

Ingrid Saraiva Tavares

O objetivo central deste artigo é debater o aspecto da formação da consciência nos países capitalistas dependentes, outrora países colonizados. Neste sentido, trazemos as colaborações de Frantz Fanon, Lélia Gonzalez e as autoras da Teoria da Reprodução Social contemporânea, Tithi Bhattacharya e Rhaysa Ruas, estabelecendo um diálogo em uma perspectiva totalizante das relações sociais. Assim, buscamos realizar uma contribuição teórica por meio do método marxista de compreensão da realidade, compreendendo que as relações de exploração, dominação e opressão são atravessadas por gênero, raça e classe.

resumos dos artigos desta edição

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