apresentação

O dossiê “Comunicação, cultura e hegemonia” proposto pela Revista História & Luta de Classes se insere, conforme sugeriu Pierre Bourdieu, nas necessárias lutas para que o mundo da mídia e do jornalismo, esse potencial instrumento de democracia direta, não se converta, unicamente, em um instrumento de opressão simbólica. E as razões para esse posicionamento não são poucas. Crítico das relações entre mídia e poder, o comunicólogo Dênis de Moraes já avaliou que os órgãos de comunicação têm a capacidade de: produzir sentidos e ideologias que interferem na opinião pública e no imaginário social; realizar a apropriação dos diferentes discursos existentes na sociedade (incluindo os rivais, de ordem política e ativista) para fazer valer os seus interesses; e exaltar a centralidade do mercado na vida social, por meio do incentivo ao consumo, ao individualismo e à competição. Pode-se dizer então que o sistema midiático é fundamental para a reprodução ampliada do capitalismo ao favorecer a estrutura discursiva da globalização e do neoliberalismo, além de agir como agente econômico. Nesse sentido, vale ressaltar a estrutura midiática baseada na concentração monopólica, em que os megagrupos garantem o espetacular nível de rentabilidade econômica do mercado midiático, ao mesmo tempo que atuam sem amarras devido à desregulamentação das leis promovida nos anos 1980 e 1990. Se não bastasse o fortalecimento do vínculo entre financeirização e produção simbólica, reduz-se o espaço de participação das pequenas e médias empresas de comunicação, que gravitam em torno dos conglomerados de mídia, e amplia-se a possibilidade de internacionalização da produção cultural, afetando as identidades locais.
Como se vê, o dossiê em questão se afasta da visão idealista da cultura como autônoma em relação a outras esferas da vida humana, ou seja, um tipo de visão que separa a cultura da vida material. Situar o debate no campo do pensamento materialista, entretanto, não significa aderir a uma vertente vulgar, mecânica, que entende os fenômenos culturais como reflexos da base econômica, de modo a simplificar a relação entre cultura e sociedade. Para superar essas duas perspectivas, a idealista e a reducionista, a cultura aqui é entendida como constitutiva da vida social, e não de forma abstrata. Este dossiê parte da premissa de que a cultura é um palco de disputas, conflitos e lutas de classe que compõem a totalidade da sociedade. Assim, também evita concepções de cultura que promovem consensos com o intuito de obscurecer as contradições no universo social. Acima de tudo, observa criticamente o predomínio dos meios de comunicação de massa e a replicação do conflito político e econômico para o cultural como marcas do tempo presente. Em um mundo cada vez mais conectado pelas novas tecnologias, as profundas transformações econômicas e políticas enfraqueceram projetos coletivos de transformação social. Trata-se, então, de manter ativo o debate cultural, examinando uma cultura mundializada, onde jornais, televisões, rádios e big techs funcionam como uma instituição política que tenta destacar ou apagar temas de acordo com as premissas capitalistas.
Reiterando o legado de Marx de pensar a cultura como uma atividade material e propondo a análise das novas complexidades da vida cultural, o dossiê em questão é composto por seis textos. O primeiro, “A hegemonia transnacional das big techs, de Eduardo Granja Coutinho, adota o aporte teórico de Antonio Gramsci para compreender a hegemonia do grande capital no tempo presente, além de atualizar o conceito de “príncipe eletrônico”, de Otávio Ianni, para pensar as big techs como o mais eficaz aparelho privado de hegemonia – sem deixar de apontar para a construção de rotas alternativas (populares e democráticas) para a comunicação. O segundo, “Comunicação, cultura e hegemonia”, de Otávio Augusto Cunha, toma como exemplo a atuação da Fundação Roberto Marinho, da Rede Globo, para analisar a ideologia do empreendedorismo como fundamental para a realização da hegemonia burguesa, devido a sua associação às leis do capital-imperialismo e ao autoritarismo discursivo que impõe a lógica do capital. O terceiro, “Editando o anticomunismo no Brasil: política editorial como ação contrarrevolucionária da internacional capitalista”, de Josiane Mozer, discute a política antimarxista e antirrevolucionária dos Estados Unidos no pós-guerra, abordando as ações formuladas e articuladas pelo Conselho de Segurança dos Estados Unidos (NSC) entre determinadas agências de Estado e aparelhos privados de hegemonia, para agir em espaços de produção e difusão de conhecimento a partir da edição de livros. O quarto, “Anatomia de um estereótipo: a origem da ideia de ‘esquerda festiva’ e os seus usos no Jornal do Brasil (1964-1965)”, de Eduardo Pereira, investiga a aplicação dessa expressão pejorativa pelo periódico carioca, de acordo com as nuances da sua linha editorial e em relação com a sua prática de estereotipagem, examinando como ocorreu a operação de identificação dos sujeitos que seriam pertencentes a esse grupo “festivo”, em tais páginas. O quinto, “Costin e a formação da opinião pública sobre educação: escritos entre 2018 e 2022 para a Folha de São Paulo”, de Murillo Rodrigues Paes, Priscila Monteiro Chaves e Guilherme Luiz Formigheri Fuá de Lima, trata da atividade daquela relevante intelectual orgânica da burguesia no que se refere ao processo de produção de consenso sobre as contrarreformas na educação pública, traduzindo demandas imperialistas de modo que elas pareçam harmonizadas às necessidades da classe trabalhadora. Por fim, o sexto, “Mangue, raça e classe: Chico Science & Nação Zumbi e o debate sobre questão racial”, de Renato de Oliveira Ferraz, avalia a discussão sobre a questão racial a partir de letras escritas pelo mencionado líder do grupo musical pernambucano, articulando as categorias de raça e classe, de forma a contribuir para a historiografia do movimento pernambucano manguebeat.
Esta edição da Revista História & Luta de Classes é encerrada com um artigo que não integra o dossiê aqui comentado, embora se enquadre perfeitamente à linha editorial da publicação. “Centralidade da luta de classes: sujeitos, contradições e antagonismos”, de Guido Galafassi, considera que o poder hegemônico, a partir de seus aparatos ideológico-políticos, conseguiu facilitar, no plano teórico, a aparição e o predomínio dos esquemas interpretativos baseados no individualismo metodológico; por essa razão, o texto busca voltar a colocar em foco a necessidade de retomar um caminho de análise dialético, centrado na luta de classes e na contradição capital-trabalho, mas atendendo também a outras múltiplas contradições que atravessam a vida dos sujeitos, individuais e coletivos, e das classes.
O ano de 2026 se anunciou sob o sinal da prepotência apresentada de forma descarada e deslavada, com o sequestro do presidente da Venezuela, mantido refém pelo odioso governo do presidente Donald Trump, que praticou a primeira agressão militar direta dos Estados Unidos contra um país sul-americano na História. Trata-se da mais explícita, violenta e radical expressão do imperialismo nos Estados Unidos desde o “big stick” de Theodore Roosevelt, há mais de um século. Semanas depois, houve o ataque coordenado de Israel e Estados Unidos contra o Irã. A enorme quantidade de agressões estadunidenses assinala dramáticas e bélicas mudanças geopolíticas, acelerando o colapso ambiental já em curso, naturalizando práticas genocidas na Palestina e favorecendo o avanço do fascismo em suas distintas expressões (racismo, misoginia, ódio aos imigrantes...) em diferentes partes do mundo.

Já não há sequer preocupação com rebuscadas justificativas ideológicas: basta a imposição da supremacia militar. Nessas condições, a cultura apenas aparenta perder espaço para a crua fala das guerras. O férreo controle da mídia proprietária se intensifica, expandem-se as formas tecnológicas de espionagem da existência social e de chantagem indiscriminada, justificando o injustificável e tentando neutralizar as tensões populares que fermentam. A cultura é um dos terrenos mais ásperos de combate. Quando História & Luta de Classes foi lançada, há mais de duas décadas, não eram poucos os que consideravam o conceito de luta de classes ultrapassado e, com ainda mais convicção, recusavam qualquer valor interpretativo ao conceito de imperialismo. Hoje não apenas a vigência da luta de classes se explicita constantemente, seja em greves, ocupações e mobilizações de trabalhadoras/es, seja na repressão e no investimento na produção do consenso por parte da classe dominante; mas também nas ações de Trump, Benjamin Netanyahu e tantos outros que personificam a violenta reação do capital são a expressão ilimitada da barbárie. Socialismo ou Barbárie segue sendo a disjuntiva fundamental de nosso tempo, com uma urgência histórica inegável. De nossa parte, seguimos reivindicando a necessidade da reflexão crítica e comprometida com a classe trabalhadora.
Extraído de: conheca-a-politica-do-big-stick-quem-a-implementou-onde-foi-aplicada.jpg.webp (1000×600) Acesso em 15 jun. 2026

Quando História & Luta de Classes foi lançada, há mais de duas décadas, não eram poucos os que consideravam o conceito de luta de classes ultrapassado e, com ainda mais convicção, recusavam qualquer valor interpretativo ao conceito de imperialismo. Hoje não apenas a vigência da luta de classes se explicita constantemente, seja em greves, ocupações e mobilizações de trabalhadoras/es, seja na repressão e no investimento na produção do consenso por parte da classe dominante, mas também, sob a odiosa presidência de Donald Trump, temos a mais explícita, violenta e radical expressão do imperialismo nos Estados Unidos desde o “big stick” de Theodore Roosenvelt, há mais de um século. Em meio ao colapso ambiental, ao avanço do fascismo em suas distintas expressões (racismo, misoginia, ódio aos imigrantes...) em dife-
rentes partes do mundo e ao avanço do genocídio sobre a Palestina, o ano de 2026 se iniciou sob o signo do brutal ataque militar contra a Venezuela e, semanas depois, do ataque coordenado de Israel e Estados Unidos contra o Irã. Já não há sequer preocupação com rebuscadas justificativas ideológicas: basta a imposição da supremacia militar. Donald Trump, Benjamin Netanyahu e tantos outros que personificam a violenta reação do capital são a expressão ilimitada da barbárie. Socialismo ou Barbárie segue sendo a disjuntiva fundamental de nosso tempo, com uma urgência histórica inegável. De nossa parte, seguimos reivindicando a necessidade da reflexão crítica e comprometida com a classe trabalhadora.
Março de 2026
Rômulo Costa Mattos
Rozinaldo Miani
Virgínia Fontes
Coordenadores do dossiê
Gilberto Calil
Editor
COMUNICAÇÃO, cULTURA E HEGEMONIA

Centralidade da luta de classes: sujeitos, contradições e antagonismos
Guido Galafassi
A contradição fundamental capital-trabalho segue moldando as formas fundamentais das relações sociais, ainda que apareça turva no presente à hora de contar com sujeitos em sua luta. O poder hegemônico a partir de seus aparatos ideológico-políticos neoliberal-pós-modernos conseguiu instalar um forte olhar individualista, emergindo em consequência uma multiplicidade de outras contradições que não remetem à clivagem de classe e que se materializaram coletivamente através do sujeito “movimento social”. Isto facilitou e promoveu, no plano teórico, a aparição e predomínio dos esquemas interpretativos baseados no individualismo metodológico. Este texto busca justamente voltar a colocar em foco a necessidade de retomar um caminho de análise dialético, centrando na luta de classes e na contradição fundamental capital-trabalho, mas atendendo também (e diferenciando-se assim de qualquer marxismo vulgar) a outras múltiplas contradições que atravessam a vida dos sujeitos, individuais e coletivos, e das classes.
Palavras-chave: Marxismo; Luta de Classes; Dialética.

O presente artigo tem o objetivo de analisar o debate sobre questão racial a partir das letras de algumas músicas dos álbuns Da Lama ao Caos (1994) e Afrociberdelia (1996) da banda Chico Science & Nação Zumbi. Desse modo, nossa intenção é elucidar uma lacuna pouco trabalhada na historiografia sobre o manguebeat referente à questão negra. A banda analisada, como conseguimos demonstrar muitas vezes, apresentou esse debate articulado às categorias de raça e classe.
Palavras-chave: Chico Science & Nação Zumbi; raça e classe; luta de classes.
Mangue, raça e classe: Chico Science & Nação Zumbi e o debate sobre questão racial
Renato de Oliveira Ferraz

Costin e a formação da opinião pública sobre educação: escritos entre 2018 e 2022 para a Folha de S. Paulo
Murillo Rodrigues Paes
Priscila Monteiro Chaves
Guilherme Luiz Formigheri Fuá de Lima
O presente artigo trata da atuação de Claudia Costin, importante intelectual orgânica da burguesia, no que compete ao processo de produção de consenso sobre a educação pública. A tarefa de organização da cultura é abordada sob duas dimensões: recomendações dos Organismos Multilaterais (OMs) e apelo ao uso das tecnologias digitais na Educação. Tratamos de aspectos atinentes à capacidade dirigente e técnica que Costin vem desempenhando com recorte mais específico para suas posições difundidas pela Folha de S. Paulo entre os anos de 2018 e 2022. A formação da opinião pública é tarefa essencial para o sucesso das contrarreformas educacionais e, com suas credenciais e notório trânsito entre aparelho do Estado e APHs, Costin cumpriu e cumpre a tarefa de traduzir demandas imperialistas de modo que elas pareçam harmonizadas às necessidades da classe trabalhadora.
Palavras-chave: Opinião Pública; Intelectuais Orgânicos; Ceipe-FGV.

O artigo discute a origem da ideia de “esquerda festiva” e alguns dos seus usos no Jornal do Brasil (JB), entre 1964 e 1965. Primeiramente, se propõe a debater as relações entre a estereotipagem e as mídias. Em seguida, apresenta um breve balanço das principais abordagens da produção intelectual acadêmica sobre a “festiva” e, por fim, examina a identificação dos sujeitos deste grupo nas páginas do JB. Com o objetivo de investigar as aplicações do termo no jornal, de acordo com as nuances da linha editorial do periódico e em relação com as estereotipagens promovidas pelo veículo da grande imprensa carioca sobre as esquerdas no Brasil no período analisado.
Palavras-Chave: Esquerda festiva; Estereótipo; Política
A anatomia de um estereótipo: notas sobre a origem da ideia de “esquerda festiva” e os seus usos no Jornal do Brasil (1964-1965).
Eduardo Pereira

Editando o anticomunismo no Brasil: política editorial como ação contrarrevolucionária da internacional capitalista
Josiane Mozer
As ações contrarrevolucionárias da burguesa transnacional ganharam novos matizes sob a liderança dos Estados Unidos após 1945, com a Lei de Segurança Nacional e a criação do Conselho de Segurança Nacional (NSC na sigla em inglês). Neste artigo, discuto as ações formuladas e articuladas pelo NSC entre as agências do governo estadunidense, especialmente a CIA e a USIA, e aparelhos privados de hegemonia, para agir em espaços de produção e difusão de conhecimento a partir da edição de livros, e assim obstruir o marxismo e movimentos revolucionários.
Palavras-chave: USIA, NSC, Política Editorial

O presente artigo tem como objetivo observar criticamente um dos principais aspectos da ideologia dominante atualmente no Brasil: a propagação da ideologia do empreendedorismo. Entendendo a cultura conceito como fundamental para o materialismo histórico, temos como objetivo analisar a função prática da ideologia empreendedora para a manutenção da hegemonia burguesa. Dessa forma, tomando como exemplo a ação de um aparelho privado de hegemonia empresarial (APHE) como a Fundação Roberto Marinho (FRM), de propriedade do Grupo Globo, buscaremos demonstrar como a propagação dessa ideologia é, hoje, umas das principais estratégias de ação empresarial por parte da burguesia multinacional e associada às leis do capital-imperialismo internacional com vínculo direto com discursos autoritários para imposição da lógica do capital.
Palavras-chave: Empreendedorismo, Hegemonia, Cultura.
Comunicação, Cultura e Hegemonia: notas sobre a ideologia do empreendedorismo como estratégia burguesa
Otávio Augusto Cunha.

A hegemonia transnacional das big techs
Eduardo Granja Coutinho
Partindo de uma discussão sobre as bases materiais da hegemonia em Gramsci, este ensaio procura entender como se exerce, hoje, a hegemonia do grande capital e — respondendo à velha questão de Lenin, "Que fazer?" — pensar as rotas alternativas de comunicação no mundo contemporâneo. Atualiza-se o conceito de "principe eletrônico", proposto por Otávio Ianni em sua reflexão sobre a televisão, para se compreender o significado das big techs como o mais eficaz aparelho privado de hegemonia nesse início de século, um organizador da cultura necessária ao capitalisno transnacional.Tematiza-se, ainda, a urgência para os países do Sul Global de uma big tech popular e democrática.
Palavras-chave: Hegemonia; Big techs; Soberania Digital.
resumos dos artigos desta edição